
Nesse sentido, vimos propor a leitura de um livro que consideramos particularmente interessante na forma como aborda a sexualidade nas suas diferentes vertentes, e que em relação à homossexualidade preocupa-se com o rigor científico e foge os preconceitos.
Uma das qualidades do livro é a utilização de duas personagens (um insecto e uma ave) que vão verbalizando algumas das possíveis questões, dúvidas e anseios das crianças ao debruçarem-se sobre este tema. Esta estratégia facilita a adesão das crianças ao livro, por verem nele reflectido a sua forma de sentir e pensar, que podem ser diferentes de criança para criança. Por exemplo, a certa altura a ave diz “A minha família saiu do ninho e foi-se embora”, e o insecto responde “A minha mantém-se unida na colmeia”.
Analisando detalhadamente o livro encontramos muitos exemplos interessantes que importa realçar.
Quando aborda a questão do desejo sexual (página 13) refere explicitamente, e coloca ao mesmo nível, o desejo sexual por alguém do mesmo sexo ou do sexo oposto: “Têm “fraquinhos” por pessoas do mesmo sexo, bem como por pessoas do sexo oposto, por pessoas da mesma idade, mais velhas ou mais novas. Ter um “fraquinho” por alguém é perfeitamente normalNa abordagem que faz da relação sexual (página 14) refere a relação com penetração entre um homem e uma mulher, mas ressalva: “… é apenas uma das maneiras de exprimir o amor”. São claramente abordadas outras formas de contactos sexuais, não limitando a descrição da relação sexual à penetração, nem faz juízos de valor (infelizmente demasiado presentes nas abordagens da sexualidade) no sentido de a penetração ser o acto final e mais profundo ;-).”

Tem um capítulo sobre heterossexualidade e homossexualidade (página 16). Não só sobre homossexualidade. E esta diferença é importante, as orientações sexuais são abordadas ao mesmo nível. Não aborda a homossexualidade, num capítulo à parte, como algo que é diferente e merece um tratamento diferente. Esta opção coloca as orientações sexuais ao mesmo nível.
Refere explicitamente a palavra lésbica, o que é raro acontecer. Normalmente só aparece a palavra homossexual. Também é referida de forma explícita a bissexualidade.
Mais importante ainda é o facto de abordar e analisar o impacto do que as pessoas sentem ou pensam sobre a homossexualidade e das reacções negativas que existem na sociedade (página 17): “Algumas pessoas não aceitam os homens homossexuais nem as mulheres lésbicas. Até há quem odeie os homossexuais só por eles serem homossexuais”.

As ilustrações têm um papel importante porque ajudam e complementam a transmissão das ideias apresentadas pelo texto.
Tem um capítulo que aborda “Todos os tipos de família” (página 50). Fala da enorme diversidade de famílias, incluindo explicitamente pais e mães homossexuais.

Aborda outros temas que normalmente não são referidos de forma explícita, como por exemplo a sexualidade na terceira idade (página 13): “As pessoas têm relações sexuais até terem uma idade bastante avançada.”
Realça-se, para terminar, que este livro sobre sexualidade escolhe para tema do capítulo final “Manter-se saudável” (página 83), falando da importância dos cuidados a ter com o corpo, mas também da importância de cuidarmos das nossas relações, das amizades e da importância do “respeito por nós próprios e pelas nossas próprias decisões”.
Um livro que torna significativamente mais fácil falar de sexualidade com as crianças e jovens.
Bibliografia:
Harris, Robie H., Michael, Emberley (1994). Vamos falar de sexo. Lisboa: Terramar.
Todas as ilustrações são retiradas do livro e da autoria de Michael Emberley